A cem metros do monumento uma fogueira crepitava, freqüentemente os ventos faziam as labaredas saltarem ou por sua vez encolher-se o mais perto do solo. Não se sabe se o vento era amigo, mas o fogo por sua vez era convidativo e acolhedor. Em torno da fogueira a tribo se reunira naquela gélida noite de inverno para escutar as histórias do ancião. Mais gente vinha chegando dos amplos campos de grama e repousava sob grossas toras de madeira. Os homens ficavam em pé, fazendo cortesia às mulheres que sentavam, cruzavam as pernas e apoiavam a mão em seus joelhos, num olhar firme para o ancião, enquanto as crianças corriam e gritavam em volta de seus pais.
— Escutem bem — Uma fumaça saiu da boca do ancião e as crianças calaram — Meu pai contou-me uma vez, que seu avó lhe contara que seu bisavó chegou neste exato local há quase trezentos anos romanos — no momento o povo se reunira fazendo com que a fogueira ficasse calma. As crianças abriam caminho entre os homens a fim de escutar melhor a história.
— E disse-me que aquele monumento... — apontou para sua direita em direção ao penhasco — Já estava lá, no mesmo estado que se encontra hoje. E há quase trezentos anos, nosso povo mora sob o olhar da mágica do local — Não se escutava nada além do sussurro do vento. — Por detrás daqueles altos muros de mármore, em volta daquelas magníficas videiras há um local mágico sem dúvida, mas não se sabe mensurar a magia do local... E temam! A magia do local não deve ser boa, pois nada do que é bom se planta naquele solo — As mulheres murmuravam entre si dando veracidade às palavra do ancião, enquanto as crianças cada vez ficavam mais caladas.
— Apesar de ser um local, escolho uma descrição sábia, terrivelmente belo, o local esconde um segredo, que nem mesmo o tempo o reconhece. — O ancião tomou um pouco do liquido fumegante em sua caneca feita de barro. — O local está aberto como vocês o vêem — limpou um pouco do liquido escorrido com as costas de sua mão — Mas cuidado, eu vos aviso! Está aberto para enganar qualquer nômade que o ache um local acolhedor, ou mesmo para enganar uma alma errante entre nós — Terminou sua frase fitando cada olhar em sua volta, parando no olhar soberbo de uma jovem.
— E sabes o que é o objeto que está no pilar central, sábio? — Perguntou firmemente a jovem cortando o poderio da palavra do ancião.
— Está é uma pergunta interessante, minha jovem. — Respondeu com interesse — Meu velho avô, que o vento sempre sopre ao seu nome, uma vez me disse quando jovem, que aquele pequeno objeto que está contido no pilar é um periéktj, ou um recipiente. — O ancião fez uma pausa esperando que alguém lhe perguntasse sua finalidade — Ele guarda — continuou — O poder de tudo o que é existente para o seu olhar. O que significa que pode ser um objeto extremamente útil... Nas mãos certas.
— E porque nunca tentou pegá-lo, sábio? — Indagou a jovem moça.
— Minha jovem Selena, porque acha que me chamam de sábio? — Levantou um sorriso em seus lábios fazendo com que todos rissem juntos. — Mas falando seriamente... — Dando uma pausa para que todos os sorrisos cessassem — Contam que não se pode pegar o objeto, pois este está protegido por um espírito, o espírito de um jovem que foi tentado à posse do periéktj, mas não conseguiu e decidiu comer das uvas do local e desde então é conhecido como o espírito de Tòpos, o espírito do lugar.
— Mas não é nos contado que o fruto da videira não mata? — Perguntou um homem à esquerda do Ancião.
— Não mata, mas nos deixa ambiciosos — Disse o ancião franzindo a testa — O que aconteceu foi que o jovem desejou cada dia mais, e sua ambição foi tão tamanha que um dia conseguiu retirar periéktj. A magia do local barra aquele que tenta sair com periéktj, e o jovem não quis sair sem ela. Ele ficou lá por alguns dias, alimentando-se somente das uvas, cada dia mais ambicioso. O dia em que seu corpo não agüentou chegou, e seu espírito, mesmo assim, não quis se separar do objeto e logo se tornou o espírito do local. Disposto a matar qualquer um que tente retirar o objeto de sua posse.
O vento soprou gelado fazendo com que o fogo subisse. O ancião sentiu que seu discurso estava considerado encerrado se levantasse, e levantou. Todos começaram a conversar e a se servir de comida, as crianças já corriam e brincavam de espírito de Tópos ao lado dos pais. O ancião virara de costas do circulo na qual a tribo se encontrava, ele andou mais um pouco até alcançar uma grande macieira, que era a única árvore da redondeza. Era uma noite comum e agradável como todas as outras, a lua estava grande e brilhante em cima da colina iluminando Topikés, como os anciões chamavam o local, ou monumento. E pousando sua mão sob o grosso tronco da macieira respirou fundo e sorriu, pois já esperava ver Selena caminhando em direção à Topikés.